XXXIX - O Mistério das Cousas
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Alberto Caeiro
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Velho poeta novo

Tenho amigos literários, graças. Não literatos, daqueles chatos que ficam discutindo a influência de Homero em Shakespeare. Ora, vão ler Homero e Shakespeare e fiquem quietos. Detesto discussões literárias, e tenho pavor de pessoas que, ao saber que gosto de ler, se põe a "discutir" literatura comigo. Eu não leio autores, eu me inundo de palavras e mundos novos. Para mim, melhor é o autor que mais me assusta. Ou encanta. Ou faz algo que nunca vi, torce as palavras, me mostra imagens que nunca vi ou vivi. Lêem o mundo de uma forma que nunca aprendi a ler.
Tenho tanta dificuldade em lembrar nomes de livros e de autores quanto tenho de lembrar o rosto de pessoas com quem dancei. Eu me lembro fortemente da sensação de trincheira, de gente entocada, uma sensação de medo e brevidade da vida - que senti ao ler Grande Sertão. Mais que isso, me lembro da exposição que fui e dos potes de água com palavras reviradas no fundo. Agora, vamos discutir se o Rosa merece um Nobel? Ora...Sartre recusou o Nobel. Isso sim é poesia.
Os livros são para serem lidos. A única coisa que me permito comentar sobre eles é sua beleza ou feiúra. Por exemplo, gostei muito de Hemingway e de Fitzgerald; porém, é preciso lê-los juntos, vários livros intercalados, um e outro, um e outro, e nos intervalos assistir um documentário sobre a construção do Empire State, homens-operários em preto e branco se balançando nas estruturas. Mal me recordo dos nomes das obras mas...quanta beleza!
Hoje estou feliz porque li pela primeira vez Mário Quintana.
Eu fico pensativa em manhãs frias e cinzas. A mente amanhece vazia - sou uma pessoa das manhãs ensolaradas, facilmente influenciada pelos tons do céu. Agora, meu pensamento é delicado e bonito, graças ao velho novo poeta que descobri.
Foi diante deste pequeno texto que este aqui, maiorzinho, surgiu.
Bilo-Bilo
O idiota estilo bilo-bilo com que os adultos se dirigem às crianças, isso deve chateá-las enormemente, como a um poeta quando abordado com assuntos "poéticos".
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* Cuidado com a internet...têm muitos textos voando por aí que não são do Quintana e estão assinadas com o nome do gaúcho.
Sites confiáveis:
Homenagem do Governo do RS a Quintana
Releituras - Quintana
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