Contadora de histórias


Eu nunca vivi em fazendas. Apesar de ter nascido num interior meio sertão, quente e cheio de cana, eu morei a vida toda em cidade média, sem as lendas de homens mágicos, trens fantasmas ou lavagens dos mortos. Eu nunca presenciei homens ricos chegando em charretes, andando no chão de terra amaciado antes para não lhe fazer poeira. Também nunca vi quando a folia de reis chega com seu pandeiro e seus palhaços para rezar pelos doentes dentro das casas.

Eu nunca entrei num palácio, nem brinquei em cima de trem parado enquanto meu pai foguista trabalhava. Não vi minha primeira maçã com 14 anos, e nem usei o mesmo vestido por anos para ir à escola: o único. Não matei passarinhos na mata, nem fui parar no hospital por cortar cana com meu facão e acertar minha perna.

Na minha escola a professora não era minha única referência de alguém que soubesser ler, nem me obrigava a escrever Meu presidente é o senhor General Emílio Garrastazu Médici no meu caderno todos os dias. Eu não fui a cinemas onde bandas baile tocavam, nem vi meus amigos passarem gravatas pelas janelas para outros poderem ver o show.

Eu nunca vesti bebês anjinhos para serem enterrados, nem nunca ganhei como pagamento pelo meu trabalho mensal dois quilos de açúcar. Eu também não encontrei meu primeiro livro, Os Patins de Prata, em uma lixeira, já sem a capa e o guardei como um tesouro. Também não passava dentro da usina pra ganhar torrões de açúcar dos trabalhadores, ou para espiar a primeira greve quando tudo começou a desmoronar.

Apesar de não serem minhas, estes contos todos me contornam e definem quem eu sou. A culpa de eu ter em mim tantas histórias, mágicas, trágicas, belas é dela, e acho que nem sabe.

Minha mãe é a melhor contadora de histórias que eu conheço. Viveu num lugar que nem existe mais, num tempo onde a inocência gerava uma imaginação exarcebada e tão rica que minha própria infância seria incapaz de ter em mim o mesmo efeito destas histórias.

Foi por causa dela e da sua paixão por histórias que aprendi a procurar outras, em livros, pessoas, músicas e lugares.

Quando converso com alguém, e me pego poetizando os acontecimentos, usando mágicas descrições de coisas e me levantando da cadeira de feliz para contar um caso antigo acho que estou vendo, em mim, um pouco desta mulher que me fez.

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A foto acima é a sala de aula onde ela estudou e leu seus primeiras letras, há mais de 40 anos atrás, na fazenda Amália, em Santa Rosa de Viterbo, fotografada por mim em uma viagem de redescobertas e passado.

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