
Um dia, você é uma moça de olhos azuis cor de água, passeando com suas irmãs na rua, e vê um rapaz de olhos azuis cor do céu pela primeira vez. Dali sessenta anos, você, sentada em uma cadeira de rodas, olha para ele pela última vez, mas ele está de olhos fechados. Ao seu lado, todos os filhos, netos e bisnetos que vocês fizeram.
O momento da morte une as pessoas ao redor da única coisa que importa: estar vivo. Não importa o que aconteceu mais, todos estão juntos. Cantam-se canções antigas, velhinhas lembrando rezadeiras de fazenda se reúnem para que a pessoa vá em paz.
Comenta-se o que aconteceu de bom e ruim. Chora-se pelo que foi e por quem fica. Pelo que foi dito, feito, e pelo que nunca foi também. Aquela pessoa com quem brigou há quase trinta anos e nunca mais falou, te carrega em procissão.
Ninguém esperava que um dia tão azul e tão triste pudesse unir a todos da forma como uniu.
Vô, vamos usar sua laje sim, onde vc até dois dias atrás estava pendurado mexendo em cimento, ativo de tal forma que nos deixava preocupados. Vamos fazer grandes reuniões, enormes, cheias de gente, crianças gritando e dando risada. Da morte, sai-de com a sensação que é preciso recomeçar. Você recomeça, e nós também.